A POLÍTICA E O PODER SIMBÓLICO

PROTESTOS

O Professor J. Santiago apresenta mais uma reflexão sobre Política no história e no atual estágio da nossa sociedade.

Nunca é demais refletir sobre esse tema tão importante que impulsiona pensadores desde a antiguidade.

Aproveitem a generosa colaboração do Professor Santiago ao GM e aos nossos leitores:

A POLÍTICA E O PODER SIMBÓLICO.

O que significa poder simbólico? Alguns pensadores admitem que, o poder simbólico sempre está ligado às relações de poder material ligado às relações de comunicação, que permitem acumular o poder simbólico. O potlatch é uma forma de se determinar o poder simbólico. Agora, o que é o potlatch?

potlatch é uma cerimônia com caráter de festa, no decurso da qual um chefe oferece ostensivamente uma quantidade enorme de riquezas a um rival, para humilhá-lo ou desafiá-lo. Este último, para apagar a humilhação e contrariar o desafio, tem de dar satisfação à obrigação moral que reconheceu ao aceitar o dom. Assim, deve mais tarde ser organizado um novo potlatch, mais importante que o primeiro, no qual se mostrará mais generoso que o anterior doador. Por outras palavras, deve dar sem usura. Praticado no decurso de uma iniciação, de um casamento, de funerais ou de ascensão ao poder, o potlatch muda de forma segundo as tribos e segundo a importância de quem o organiza (Enciclopedia Protopia).

É justamente através do poder simbólico, na oferenda dos “potlacths que não são apenas a doação sem usura de um chefe para o outro, mas tem muito mais por trás dessa oferenda que é o que aparece na função política de instrumentos de imposição ou legitimação do poder, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre a outra” (BORDIEU 1989). Analisando dessa forma podemos entender o que realmente significa o poder simbólico. A grande força do poder simbólico se agrega na força da relação que um sujeito tem com o outro, fazendo com que essa força aplicada à relação sirva para fazer o outro aceitar as condições impostas e deixando-se dominar.

Na política o que mais se tem é a força do poder simbólico, vemos sempre que as facções políticas estão empenhadas continuamente em uma luta, para dominar o eleitorado através do poder simbólico, ou seja, através das dádivas ou dos potlatchs, que regam as campanhas em todo o território nacional, para através de suas ideias transfiguradas ou travestidas, imporem o seu modelo de mundo social. Essa luta pode ser travada de duas maneiras: nos conflitos simbólicos do quotidiano, ou pelos especialistas que a produzem o tempo inteiro (os  políticos), trazendo com isso o poder da violência simbólica e esta, legitima-se como poder de impor ou inculcar conhecimentos arbitrários à sociedade dominada.

É esta classe dominante que detém o poder da hierarquia com esse poder assentado na condição econômica, o que acaba legitimando a sua dominação através do poder simbólico ou das ideologias conservadoras, que só servem aos interesses do dominador. Os sistemas simbólicos são uma replica de como estes são produzidos através de um campo relativamente autônomo, onde a história não pode se separar dos mitos, assim como da religião que constituem um corpo de discursos e ritos religiosos, inclusive criando uma dimensão do progresso através da divisão do trabalho religioso, que se relaciona intimamente com a divisão do trabalho social (BORDIEU 1989).

Já segundo Weber (1922), existem três tipos puros de poder, ao falar do carismático, diz que:

Poder carismático, mediante a dedicação afectiva à pessoa do senhor e aos seus dons gratuitos (carisma), em especial: capacidades mágicas, revelações ou heroísmo, poder do espírito e do discurso. O eternamente novo, o fora do quotidiano, o nunca acontecido e a sujeição emocional são aqui as fontes da rendição pessoal. Os tipos mais puros são a autoridade do profeta, do herói guerreiro, do grande demagogo. A associação de domínio é a agremiação na comunidade ou o séquito. O tipo daquele que ordena é o chefe.

É mediante essa dedicação efetiva à pessoa do senhor ou aos seus dons (potlatchs) ou chamados ainda de carisma, estão as suas capacidades magicas, revelações ou heroísmo, o poder do espírito e do discurso fazem a diferença, transformando suas palavras no sempre novo, no diferente que está fora do normal ou corriqueiro, mesmo que estas promessas nunca tenham acontecido levam a sujeição emocional, que são suas fontes para as rendições pessoais entre a população. Entre os vários tipos de criadores do poder simbólico estão: os profetas, o herói, o guerreiro e o politico (demagogo), que têm como séquito o domínio da comunidade passando a ser o seu chefe.

Sempre é através do poder simbólico, que a classe dominante assume as rédeas da situação politica em qualquer momento, pois como diz Weber em seu trabalho Os Três Tipos Puros de Poderes Legítimos, ao falar do poder carismático ou simbólico os dons, onde apresenta as capacidades magicas, revelações ou heroísmo, poderes do espírito do discurso levam as suas ideias para o publico alvo escolhido, deixando-o embebido em esperanças convertendo-se em discipulado da pessoa que alega possuir esses poderes, que é o de mudar o cotidiano e fazer revoluções onde o mais necessitado vai alcançar seus sonhos.

Esse poder é uma forma de escravização dos mais ignorantes e, uma arma poderosa usada no sentido de manipular as massas tornando-as submissas a esse tipo de pensamentos ou ideias, que acabam favorecendo somente aos que ascendem ao poder e através desse poder, em alguns casos, se perpetuam tornando-se ícones para muitos. Com pessoas dedicando a sua vida em defender as suas ideias, não reconhecendo o seu líder como um usurpador da sua própria vida.

Quando eleitos, montam o corpo administrativo segundo o carisma e a dedicação pessoal a ele prestada e não pela capacidade profissional, é nesse momento que está ausente o conceito racional da competência, aparecendo então, como legitimação ou privilégio do seguidor, para isso basta somente a missão do senhor e a qualificação carismática dele. Isso leva a luta de pessoas por cargos administrativos dentro do governo, não para servir a comunidade em si, mas ao senhor ao qual devota o seu interesse pessoal.

Voltamos a posição inicial onde os potlatchs, ou seja, as dádivas, criam laços de compromissos entre as partes envolvidas, fazendo com que tenhamos o cancro político chamado de politicagem, que é o mais pernicioso dos problemas administrativos no âmbito governamental. Mas até hoje, poucos são os que realmente entendem esse processo de domínio e que conseguem separar os “alhos” dos “bugalhos”, entretanto, a maioria ainda é dominada pelo compromisso da trocas e pelo poder carismático do chefe.

É por esse motivo, que para o demagogo basta apenas o direito natural por ele sugerido, que de um lado (o dele) só existe justiça e do outro somente injustiça. Sendo o politico carismático (demagogo), sendo esta uma criação ocidental, onde o carisma ou domínio religioso onde ele aparece através dos séculos, se solidificou sobre os homens. É ai que o político aparece como o profeta que prediz o que vai acontecer e revela o segredo de como fazê-lo é por isso, que a fé em suas palavras não titubeia e deve ser cumprida como obrigação, cujo cumprimento carismático para si o exige e o político é aquele que vinga a infração ou a injustiça cometida contra os seus, portanto, o herói de todos.

Vamos aguardar os acontecimentos, para ver como se desenvolverá a política em nosso meio e se outros carismáticos ou aqueles que possuem os dons dos potlatchs, apareçam para prometer mudanças e conquistar mais ordens submissas as suas ideias, discursos e profecias, para restaurar (se possível) a ordem natural das coisas segundo suas ideias. Toda essa imagem que fazemos dos políticos necessitam de um exame minucioso, que muitas vezes achamos que podemos perceber essas nuanças por um simples golpe de vista, entretanto se assim o fizermos, iremos ter uma leitura superficial da imagem apenas, quem quiser ir mais fundo deve fazer um exame mais apurado ou, uma varredura completa (um scanning ou escâner) sobre o plano contido na imagem, ou melhor, o plano que está contido na superfície da imagem (no caso as promessas e ideias do politico) que deve ser decifrado e para isso, temos que perceber os seus mínimos detalhes para não sermos dominados de forma simbólica..

“Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.” (Vilém Flusser)

J.Santiago.

BORDIEU. Pierre – O Poder Simbólico – TOMBO 116069 – SBD-FFLCH-USP. Ed. Bertran Brasil S.A – 1989.

MAUSS Marcel – Sociologia e Antropologia – COSACNAIFY – Biblioteca Setorial-CEFD-UFES (s.d)

PROTOPIA ENCICLOPEDIA – Potlatch: uma definição enciclopédica Protopia Acessado em 26/01/2017 – http://pt.protopia.at/wiki/Potlatch:_uma_defini%C3%A7%C3%A3o_enciclop%C3%A9dica

WEBER, Max – Os Três Tipos Puro de Poderes Legítimos – Tradução de Artur Morão. O ensaio, encontrado no espólio do autor, foi postumamente publicado por Marianne Weber nos Preußischen Jahrbücher, Vol. CLXXXVII, 1922, pp. 1-12, com o subtítulo: Um estudo sociológico. Disponível em: www.lusosofia.net.

FLUSSER. Vilém – Filosofia da Caixa Preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia – São Paulo, 1985.

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Um comentário sobre “A POLÍTICA E O PODER SIMBÓLICO

  1. Quando esses políticos deixarão seu egoísmo ,ego centrismo e buscarem gestar com humanismo,e acima de tudo com responsabilidade social ..quando isso vai acontecer !

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